Maria Hellena, de 9 anos, é única de Santa Cruz aprovada na Escola Bolshoi Brasil
Maria Hellena Torres de Mello, de apenas 9 anos, foi a única criança de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, selecionada para a Escola Bolshoi Brasil. A aprovação em um dos processos seletivos mais concorridos do país garante à jovem uma bolsa integral de oito anos, consolidando o sonho de carreira que ela acompanha desde a infância.
Maria Hellena Torres de Mello, de nove anos, tornou-se a única residente do município de Santa Cruz, localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, a ser aprovada no processo seletivo para a Escola Bolshoi Brasil. A instituição, sediada em Joinville, em Santa Catarina, é a única fora da Rússia com essa denominação e oferece formação técnica em dança clássica. A conquista marca o culminar de um percurso iniciado há pouco mais de um ano, quando a menina passou a frequentar aulas no âmbito do projeto social Instituto Novos Talentos.
O processo seletivo para ingresso na escola foi marcado por alta competitividade. Segundo os dados oficiais da instituição, a etapa inicial contou com 1.759 candidatos provenientes de diversas regiões do país. A fase final, realizada nos dias 16 e 17 de outubro em Joinville, reuniu aproximadamente 300 crianças, representando 22 estados brasileiros e o Distrito Federal. O critério de seleção avaliou um conjunto complexo de atributos físicos, motores, artístico-musicais e cognitivos dos candidatos.
Entre os elementos analisados pelos avaliadores estavam a postura corporal, flexibilidade, força muscular, coordenação motora, musicalidade, expressão artística, presença cênica e desempenho cognitivo. A aprovação garante à jovem uma bolsa integral que cobre oito anos de formação. O programa inclui não apenas o ensino técnico da dança, mas também uma estrutura multidisciplinar de acompanhamento voltada ao desenvolvimento integral dos estudantes.
Além de Maria Hellena, outros cinco bailarinos do estado do Rio de Janeiro foram selecionados no mesmo processo. Eles são Clayton Matheus da Silva e Guilherme Leonardo, ambos da capital; Ayla da Silva Damaceno, de Queimados, na Baixada Fluminense; Sara Victória Trece de Souza, de Saquarema, na Região dos Lagos; e Miguel Albert Oliveira Gonçalves, de Itatiaia, no Sul Fluminense.
Para Maria Hellena, a aprovação representa a materialização de um desejo antigo. A menina relatou que seu interesse pela dança começou muito cedo, brincando de ser bailarina diante do espelho em casa. "Era mesmo o meu sonho ser bailarina. Quando a minha mãe falou que ia vir aqui ver se tinha uma vaga para eu fazer balé, fiquei muito feliz", disse ela. Ao receber a notícia da aprovação, a criança expressou um misto de emoções. "Estou orgulhosa de mim", celebrou Maria Hellena, reconhecendo também a saudade que sentirá das amigas e professoras com quem conviveu no projeto local.
A família da menina acompanha de perto a transição que se inicia. Cristiane Ribeiro, mãe de Maria Hellena, descreveu o sentimento como "maravilhoso" e um "orgulho tremendo". Ela ressaltou que a filha sempre apoiou o sonho da criança, que começou a ter aulas formais apenas em junho de 2025 no Instituto Novos Talentos, sem participação anterior em outros cursos ou projetos de balé. "Do espelho de casa direto para um projeto que depois nós tivemos a oportunidade de colocá-la. E dali ela foi chamada e selecionada", relatou Cristiane.
A mudança para Santa Catarina já está nos planos da família. As aulas na Escola Bolshoi Brasil têm início previsto para fevereiro de 2027. A mãe confirmou que todos os membros da família, incluindo o pai e as irmãs, acompanharão a menina na nova etapa. "Estamos tentando nos organizar aqui da melhor maneira possível. Vamos todos. A vida vira de cabeça para baixo, mexe com tudo", brincou Cristiane Ribeiro.
A trajetória de Maria Hellena foi influenciada por referências próximas ao seu ambiente de formação. A bailarina citou Eloá Macruz, antiga aluna do Instituto Novos Talentos que atualmente cursa o terceiro ano na Escola Bolshoi Brasil. "Quando eu estava fazendo aula, a tia Tayná me mostrou a Eloá, que tinha passado. Então, eu comecei a me inspirar nela, porque eu achei ela muito linda", explicou Maria Hellena.
Tayná Romanelli, professora do instituto há quase uma década, destacou o papel da instituição em uma região com escassos recursos culturais. "A gente vê a chance de transformar, não somente a vida dela, mas também da família. Aqui, em Santa Cruz, não temos recursos para a cultura", afirmou a bailarina. Ela enfatizou que o trabalho do instituto busca identificar vocações latentes nos alunos, muitas vezes sem que eles próprios tenham consciência delas.
"Às vezes, os alunos chegam sem saber que têm a vocação, mas levamos o nosso trabalho com muita seriedade, disciplina e responsabilidade. Assim, conseguimos identificar que, às vezes, eles só precisam de uma oportunidade", disse Tayná Romanelli. Ela considerou grandioso e precioso o fato de Maria Hellena ter conquistado sua vaga saindo da Zona Oeste do Rio, onde a existência do próprio projeto é desconhecida por muitas pessoas.
O Instituto Novos Talentos, fundado em 2006, oferece atividades gratuitas nas modalidades de futebol, dança e vôlei. Atualmente, mais de 650 crianças participam das aulas, sendo cerca de 200 delas matriculadas nas turmas de balé. A aprovação de Maria Hellena é vista pela equipe pedagógica como um exemplo da eficácia do projeto em potencializar talentos em comunidades com menos acesso a oportunidades culturais formais.
D.Moerman--LCdB