Irã e Israel continuam se atacando apesar das declarações de Trump sobre negociações
Irã e Israel realizaram novos ataques nesta terça-feira (24), ao mesmo tempo em que surgem sinais diplomáticos na tentativa de encontrar uma saída para o conflito regional que virou os mercados de energia de cabeça para baixo.
Para negociar, são necessárias duas partes, e ninguém sabe quem representa o lado iraniano. O presidente americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira (23) que está conversando com um "líder" iraniano, que não identificou, e estabeleceu um prazo de cinco dias antes de retomar os bombardeios.
No entanto, Mohammad Bagher Ghalibaf, o presidente do Parlamento iraniano e que, segundo o site de notícias Axios, seria o interlocutor, negou veementemente que os dois lados estejam mantendo conversas.
"Não há negociações" em andamento com Washington, destacou na rede X, e insistiu que Trump busca "manipular os mercados financeiros e de petróleo".
Em meio às especulações, os combates continuam.
As câmaras da AFP registraram imagens de ruas cheias de escombros na manhã desta terça-feira em Tel Aviv, onde as equipes de resgate atendiam quatro feridos após um bombardeio em um bairro de classe alta na zona norte da cidade.
O ataque deixou um grande buraco na fachada de um antigo edifício de três andares, informou um jornalista da AFP.
Pela tarde, um homem, uma mulher e um bebê ficaram feridos no sul de Israel, indicaram socorristas, em uma área onde, segundo a polícia, caíram fragmentos de projéteis interceptados.
A Arábia Saudita e o Kuwait também disseram ter sido alvo de ataques com drones e mísseis.
Por sua vez, o exército israelense realizou "uma série de bombardeios em larga escala (...) em várias regiões do Irã", incluindo Isfahan.
Algumas instalações desta cidade do centro do país ficaram "parcialmente danificadas" e um projétil atingiu as imediações de uma estação de tratamento do gasoduto de Jorramshahr, no sudoeste, indicou a agência de notícias Fars.
Em Teerã, a população sofre com os constantes bombardeios.
"Ouço explosões todos os dias", disse um corretor da bolsa, de 30 anos, que pediu para não ser identificado, à AFP.
"De modo geral, a guerra ainda não transformou a cidade, mas espero que não comecem a bombardear as centrais elétricas", acrescentou.
- Mensagens de "países amigos" -
No plano diplomático, não há nenhuma certeza em meio a tanta informação contraditória.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu - cujos objetivos de guerra nem sempre coincidem com os de seu aliado americano - afirmou que Donald Trump considera possível "um acordo que [preserve os] interesses vitais" de seu país. Mas, ainda assim, declarou na segunda-feira que suas forças continuarão "bombardeando tanto o Irã quanto o Líbano".
No Irã, o Ministério de Relações Exteriores disse que recebeu mensagens de "alguns países amigos indicando uma pedido dos Estados Unidos para negociações destinadas a pôr fim à guerra", mas negou que tais conversas tivessem ocorrido.
No entanto, tudo indica que as manobras diplomáticas continuam nos bastidores.
O Catar enfatizou que "apoia todos os esforços diplomáticos", mas que não participa de forma "direta" deles, segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Majed al-Ansari.
E o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirmou nesta terça-feira que seu país está disposto a acolher eventuais negociações "para [alcançar] uma solução" para o conflito.
Para Michael Kugelman, especialista no Sudeste Asiático do Atlantic Council, o envolvimento de Islamabad na mediação faria sentido.
"O Paquistão é um dos poucos países que mantêm relações próximas tanto com Teerã quanto com Washington", explicou.
Por último, o Egito parece estar jogando suas próprias cartas. Seu ministro de Relações Exteriores, Badr Abdelatty, conversou com o Irã, Estados Unidos, Turquia e Paquistão nos últimos dias, segundo vários comunicados oficiais.
- "Perdeu-se a confiança" nos EUA -
Toda esta sequência de iniciativas diplomáticas chega após várias declarações contraditórias do presidente americano.
Em sua rede Truth Social, Donald Trump primeiro adiou em "cinco dias" os bombardeios que havia ameaçado realizar contra a rede elétrica iraniana caso Teerã se recusasse a desbloquear o Estreito de Ormuz, uma passagem marítima por onde costumava circular 20% dos hidrocarbonetos consumidos em nível mundial.
Em seguida, afirmou que Teerã e Washington haviam encontrado "pontos de acordo importantes" em negociações com um misterioso "líder", cujo nome não foi revelado, embora tenha especificado que não se tratava do líder supremo Mojtaba Khamenei.
Porém, mais tarde, ameaçou "continuar bombardeando alegremente" a República Islâmica se as negociações fracassarem.
Na Europa, as declarações do presidente americano estão causando indignação.
O chefe do Estado-Maior francês, o general Fabien Mandon, lamentou que Washington seja cada vez "menos previsível" e que não tenha avisado seus aliados antes de entrar em conflito.
O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, considerou, por sua vez, que "perdeu-se a confiança" nos EUA e criticou uma guerra "evitável" e "inútil", que afirmou ainda violar o "direito internacional".
burx-dla/apz/jvb/an/rm-jc
U.Smet--LCdB